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Paulo Nogueira Batista Júnior: “O Brasil é um dos gigantes do mundo”

Paulo Nogueira Batista Júnior: “O Brasil é um dos gigantes do mundo”

Economista lançou o livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata”

Correio do Povo

16/12/2019 PorJessica Hübler

Foto: Fabiano do Amaral

Paulo Nogueira Batista Júnior é economista, foi diretor executivo pelo Brasil e mais 10 países no Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, nos Estados Unidos, entre 2007 e 2015 e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), estabelecido pelos Brics (sigla que se refere a Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) na cidade chinesa de Xangai, entre 2015 e 2017. Ele esteve em Porto Alegre para participar de palestra promovida pelo Programa de Pós-graduação em Economia (PPGE) da UFRGS e para lançar o livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata”. 

Correio do Povo: O que te inspirou para escrever o livro?
Paulo Nogueira Batista Júnior:
 Achei que era importante deixar registrada a minha vivência no exterior, num período de 10 anos em que eu fui primeiramente diretor executivo pelo Brasil e outros 10 países em Washington e depois vice-presidente no Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), estabelecido pelos Brics com sede em Xangai. Achei que era uma experiência rica, interessante e procurei fazer um livro que mistura análise econômica e das condições internacionais, com relatos de processos de negociação e de embates ocorridos durante as negociações. É um livro diferente daqueles que habitualmente são publicados sobre este tipo de tema, porque geralmente os autores que falam sobre estes assuntos FMI, G20, BRICS, economia internacional, falam a partir de uma perspectiva puramente acadêmica e eu escrevi a partir de uma vivência.

CP: Por que o título “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”?
Paulo Nogueira:
 A rigor não deveria ser necessário escrever um livro com esse título, porque como diria o Nelson Rodrigues, que é um dos personagens do livro, é o “óbvio ululante” que o Brasil não cabe no quintal de ninguém porque o Brasil é um dos gigantes do mundo. É um dos cinco países do mundo que integram ao mesmo tempo a lista dos 10 maiores territórios, das 10 maiores populações e das 10 maiores economias. Estes cinco são os Estados Unidos, a Rússia, a Índia, a China e o Brasil. Então o Brasil é um dos gigantes do mundo e por definição não cabe no quintal de ninguém, mas o brasileiro não tem essa percepção, o brasileiro sofre do famoso “complexo de vira-lata”, metáfora também do Nelson Rodrigues, que impede que normalmente o brasileiro perceba a dimensão do Brasil. Na cabeça do brasileiro o Brasil é pequeno, embora objetivamente ele seja um dos gigantes do mundo. Então se não fosse essa deficiência de autoestima do brasileiro, não seria nem necessário publicar um livro com esse título. Só seria possível que o Brasil coubesse no quintal de alguém se fosse rompida a unidade nacional e o Brasil se fragmentasse em vários países, mas enquanto ele for esse país continente, ele não cabe no quintal de ninguém. Apesar de que o pessoal se esforça, não é?

CP: Como foi a experiência no FMI?
Paulo Nogueira:
 Foi uma experiência que dificilmente se repetiria em outra época. Foi um período muito especial, uma época de crise profunda na economia internacional, nos países desenvolvidos dos dois lados do Atlântico Norte e, ao mesmo tempo, foi um período em que o Brasil estava em ascensão, ganhava prestígio, peso econômico, peso político. Então eu pude ser o diretor brasileiro no FMI nessa situação muito especial, em que o Fundo Monetário havia se tornado muito importante. Sempre que há um incêndio de grandes proporções o Corpo de Bombeiros adquire importância, foi o que aconteceu com o FMI. E foi uma experiência rara participar de um organismo mais importante, em um momento de crise internacional aguda, quando o Brasil tinha mais peso, quando o Brasil tinha uma capacidade de atuação. Então eu relato no livro como foi, para um brasileiro, participar desse processo, no momento em que o Brasil se comportava como o grande país que é.

Mas não foi fácil. Apesar de o Brasil estar em uma fase de grande prestígio (entre 2007 e 2015), os europeus e os americanos estão acostumados a mandar, e não querem abrir mão dos seus privilégios, da sua hegemonia na governança internacional, resistem à mudança no mundo, à ascensão dos emergentes. O Brasil neste período fazia parte do grupo de países dinâmicos, com influência crescente, então relato também os embates com representantes de países desenvolvidos. Conto (no livro) sobre as dificuldades que um brasileiro enfrenta para firmar a vontade brasileira de participar em igualdade de condições, com voz ativa, da governança internacional.

CP: O que explica a recessão econômica vivida pelo Brasil entre os anos de 2015 e 2016?
Paulo Nogueira: 
Uma combinação de fatores, sobretudo internos. Foi uma recessão fabricada dentro do Brasil, fundamentalmente. Houve alguma contribuição de fatores externos, notadamente a queda dos preços das “commodities” , dos produtos primários exportados pelo Brasil, mas foi principalmente a combinação de uma crise política profunda, depois da reeleição da presidente Dilma Rousseff, os efeitos da decisão de grande parte da oposição de derrubar o governo eleito, não reconhecendo a sua derrota nas eleições e pagar o preço necessário, até o ponto de desestabilizar a economia. Tivemos a crise política de um lado e de outro a (Operação) Lava Jato, que foi uma operação que puniu mais as empresas do que os empresários, burocratas e políticos corruptos ou corruptores. 

As empresas foram atingidas, o setor de empreiteiras, a Petrobras, a cadeia produtiva associada a essas empresas e isso gerou um efeito de retração econômica importante também. E finalmente os próprios erros de política econômica. Tanto no período anterior à crise, até 2014, como depois. Porque durante a crise o Brasil adotou uma política de ajuste abrupto das tarifas, o que elevou a inflação, forçou a alta de juros. Houve, além disso, cortes de gastos quando a economia estava em queda. Então foi uma tempestade perfeita de fatores internos, econômicos e políticos,  com a contribuição da queda dos preços das “commodities”.

CP: O que efetivamente precisa ser feito para que um país supere uma crise econômica dessa magnitude?
Paulo Nogueira:
 Agora o Brasil está começando a ter uma recuperação. Acredito que neste final de ano e no ano que vem, vamos ter pela primeira vez em muitos anos um crescimento um pouco mais significativo, porque as condições objetivas da economia não são de todo ruins, na minha opinião. O país tem reservas internacionais altas, é um ponto muito forte, além de inflação baixa e controlada. Eu não acredito que a situação fiscal seja tão dramática quanto se pinta, ela é sim extremamente difícil em nível subnacional, principalmente em alguns estados, como o Rio Grande do Sul. por exemplo, mas não no nível da União. Não diria que há um colapso fiscal, mas sim dificuldades fiscais. Então se você tem agora, finalmente, queda nas taxas de juro, estímulos como a liberação do FGTS e o 13º do Bolsa Família, liberação de recursos do Pré-Sal, desbloqueio de gastos que estavam antes contingenciados, uma certa mobilização dos bancos públicos, principalmente da Caixa Econômica (Federal) para ampliar a oferta de créditos, tudo isso vai gerar um certo impulso. Não digo que vai ser um crescimento maravilhoso no ano que vem, mas deve ser melhor do que foi nos anos posteriores à recessão, melhor que 2017, 2018 e 2019.

CP: E com relação ao sistema financeiro global, como está a economia brasileira? Qual a importância do Brasil no cenário internacional?
Paulo Nogueira:
 O Brasil é uma das 10 maiores economias do mundo. O que acontece no Brasil repercute muito, não só aqui no nosso entorno regional, mas também em outras regiões. O Brasil tem um peso grande em vários mercados. E, portanto, é mais um exemplo de como a relevância do Brasil é subestimada no próprio Brasil. Quando você avalia a economia mundial, por exemplo no Fundo Monetário, no Banco Mundial, na OCDE , o Brasil é sempre objeto de atenção, por ser uma das maiores economias do mundo, então o fato de a economia brasileira se recuperar um pouco em 2020, vai ser um fato importante da economia mundial, principalmente da economia regional latinoamericana. 

CP: Qual a importância de um projeto econômico consolidado e qual seria o ideal para o Brasil, no momento?
Paulo Nogueira:
 Economia é sempre economia política, o ideal não existe. Você pode se fechar em uma torre de marfim e desenhar um plano ideal, mas isso tem pouca relevância, porque é preciso fazer a avaliação da correlação de forças políticas e sociais. Feita essa ressalva, acho que nós temos que caminhar no sentido de uma política de desenvolvimento mais ativa, que envolva promoção do crescimento mais consciente, mais sistemática, geração de empregos, distribuição de renda e de riqueza, porque o Brasil tem uma concentração de renda e de riqueza entre as mais altas do mundo. Então, acho que sem desenvolvimento, geração de empregos e distribuição de renda, nós vamos continuar patinando.

CP: E sobre a desvalorização do Real em relação ao Dólar. Essa desvalorização é benéfica para a economia brasileira?
Paulo Nogueira: 
Eu diria que é benéfica. É um dos fatores que explicam uma provável melhora do quadro econômico em 2020. Na realidade o que acontece quando o câmbio se deprecia, como consequência principalmente da queda da taxa de juro interna, é um estímulo para os setores que exportam e os setores que competem com importações , isso favorece a recuperação da economia. A tendência nos últimos tempos no Brasil tem sido de câmbio excessivamente apreciado, então a depreciação que ocorreu até agora não é preocupante, no meu entender. Não ameaça o controle da inflação, até onde eu posso perceber, não tem impacto inflacionário preocupante, não ameaça no meu modo de ver a trajetória de redução da taxa básica de juros por enquanto. Vai dificultar gastos no exterior, vai prejudicar os planos de viagens de turistas brasileiros, mas isso me parece altamente secundário diante da oportunidade que dá para recuperar um pouco a indústria, os setores que exportam, os setores que competem com importações. 

CP: Com relação às taxas impostas ao Brasil pelos Estados Unidos, principalmente na área da siderurgia, o que elas significam?
Paulo Nogueira: 
Justamente mostra que o Brasil incomoda porque o Brasil tem relevância no mercado siderúrgico. E quando aparecem indícios de que o Brasil pode ganhar competitividade de alguma forma ocorrem reações de outros países. Também no mercado agropecuário, onde o Brasil tem grande peso. O anúncio do presidente americano é uma reação protecionista. O argumento dele não tem fundamento, a depreciação cambial brasileira não é uma depreciação fabricada. Ao contrário, o Banco Central nas semanas anteriores ao anúncio do presidente americano estava atuando no sentido de frear um pouco a desvalorização que o mercado vinha produzindo. Então o argumento do presidente Trump não tem fundamento, mas mostra que o Brasil incomoda pela sua dimensão, pelo menos em alguns mercados.

E também o seguinte: mostra como tem sido ilusória a percepção do governo de que se construiu uma relação especial com os Estados Unidos. Mais uma decepção, porque o governo tem feito uma série de concessões unilaterais aos Estados Unidos, econômicas e políticas, concessões significativas e a resposta tem sido praticamente zero. Era de se prever. Morei oito anos nos Estados Unidos, tive muito contato com os americanos, no G20 e principalmente no FMI e posso dizer: americano não respeita países que se comportam de forma subserviente, que fazem concessões unilaterais, eles nem entendem isso. Então não me surpreende que o resultado dessa política de concessões unilaterais seja este que está se produzindo em 2019. Espero que caia a ficha e que o governo brasileiro adote uma política mais equilibrada e menos subserviente em relação ao governo americano.

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